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Escrito por: Gabriel Eid - Fotos: Rodrigo Costa, Larissa Navarro, Gabriel Eid e Acervo Alesp 23/01/2026

Aos 58 anos, Palácio 9 de Julho representa ideia de política transparente

Com influência direta do modernismo, prédio que sedia a Alesp foi inaugurado em 25 de janeiro de 1968; seu projeto foi fruto de concurso público que mobilizou arquitetos de todo o Brasil

 

 

A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo teve quatro sedes em sua história e a atual, o Palácio 9 de Julho, foi a primeira construída especialmente para essa finalidade. Hoje, no mesmo 25 de janeiro do aniversário da cidade de São Paulo, sua inauguração completa 58 anos.

A proposta de construção de uma nova sede para a Casa Legislativa Paulista foi apresentada em 1960 pelo então presidente Abreu Sodré e aprovada pelos parlamentares do estado. O Brasil estava no fim do governo de Juscelino Kubitschek, a nova capital federal, Brasília, havia sido inaugurada naquele mesmo ano, e o regime democrático vivia um cenário de estabilidade.

Desde o ano de 1947, a Assembleia ocupava o Palácio das Indústrias, local improvisado e que não comportava adequadamente as necessidades parlamentares. Os registros da então deputada Conceição da Costa Neves explicam essas inadequações: "Dia a dia, mostrava-se cada vez mais evidente a inadequação do edifício às funções políticas e administrativas do Poder que ocupava. As constantes reformas e adaptações, impostas pela necessidade, se foram eternizando".

Segundo Allan da Fonseca, analista na Divisão de Biblioteca e Acervo Histórico da Alesp, o contexto de maior estabilidade política e econômica, que atingia o cenário nacional, refletiu em São Paulo e influenciou na decisão de construir o novo patrimônio público. "Foi um acontecimento muito importante da história da cidade e do estado."

Em dezembro de 1960, o local da nova sede - ao lado do Parque do Ibirapuera - foi formalizado e, no ano seguinte, foi aberto um concurso público que mobilizou arquitetos de todo país. Ao todo, foram 46 projetos apresentados e o resultado foi transmitido pela TV Excelsior em 14 de junho daquele ano.

O projeto ganhador foi o de Adolpho Rubio Morales e Fábio Kok de Sá Moreira, que compartilhavam das mesmas inspirações modernistas de Oscar Niemayer. Após pouco mais de sete anos de obras, a inauguração se deu em 25 de janeiro de 1968, já durante a ditadura militar.

Modernismo

Restaurador e fotógrafo de arquitetura, Victor Massao explica que o projeto do Palácio 9 de Julho é o mesmo das primeiras correntes do modernismo surgidas no Rio de Janeiro no final dos anos 1930 e que se popularizaram durante grandes obras públicas, como as de Brasília. Entre os arquitetos marcantes estavam Gustavo Capanema, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

"O que a gente chama de modernismo carioca, que é essa primeira escola grande do modernismo, é a ideia que está na cabeça de toda arquiteta e arquiteto ao retratar a imagem do Poder. Não é possível desvencilhar essa imagem."

Segundo Victor Massao, essa corrente se diferenciava do modernismo brutalista, próprio de alguns prédios icônicos do centro de São Paulo. Suas construções buscavam leveza, sinuosidade e pinturas claras para refletir o calor em oposição a estética mais densa e cinza do brutalismo. Do ponto de vista político, ela trazia a ideia de valorização do poder popular: "Psicologicamente é a lógica da transparência. Você, como população, olhar os trâmites do Poder."

Os brises que contornam todo o prédio do Palácio 9 de Julho, pequenas aberturas que protegem suas janelas do sol, também são uma representação desta ideia. "Tentar parecer que seja algo leve e permissível, algo que você consiga ir e voltar", indica Massao.

Outro ponto apresentado pelo especialista é o fato do prédio estar um pouco elevado em relação ao solo - que tem o objetivo de proteger de alagamentos -, mas também representa a ideia de que a democracia emerge do solo, de baixo. "Ele é moderno do início ao fim, não existe nada que você não enxergue moderno nele", pontua.

Localização estratégica

Allan da Fonseca, do Acervo Histórico da Alesp, indica que a localização da nova sede da Assembleia Legislativa é estratégica e traz significados relacionados ao imaginário político paulista. A localização em frente ao Parque do Ibirapuera, símbolo da cidade de São Paulo e do modernismo, próximo das Avenidas 23 de maio e 9 de julho, marcos da Revolução Constitucionalista, e das Avenidas Brasil e Pedro Álvares Cabral, referências à história brasileira, são exemplos destes significados.

"Nós temos aqui o parlamento colocado justamente em uma intersecção entre a história de São Paulo e do Brasil. O Parlamento representando a voz de São Paulo conduzindo esse desenvolvimento nacional. Então é muito simbólico aqui."

Acervo

A Divisão de Biblioteca e Acervo Histórico da Alesp possui uma coletânea que inclui fotos da época da construção do Palácio, croquis originais apresentados pelos arquitetos concorrentes e documentos da Comissão de Obras - formada por deputados e por funcionários para coordenar o processo de concurso e construção.

Além disso, também guarda cópias de revistas históricas que foram recuperadas por ex-funcionários e doadas para a Divisão.

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